domingo, 1 de novembro de 2009

Conto um Quadro #16 - Metrônomo

["A lição de piano", Henri Matisse. Óleo sobre tela, 245,1x212,7cm. Moma, Nova York]


Toca, menino, toca.

É segunda-feira tarde. Lá fora, faz calor. Som vazio aqui dentro.

Toca, menino, toca.
O metrônomo não para. Os segundos vão passando. Olha esse compasso...

Toca, menino, toca.

Tantas pipas perdidas. Pique-esconde, rolimã.

Toca, menino, toca.

Vale a pena pelos doces que a mãe vai dar depois.

Toca, menino, toca.

O som transforma o som. Agora já sou grande.

Toca, menino, toca.

Toca, menino, toca.

Toca, menino, toca.

sábado, 3 de outubro de 2009

Conto um Quadro #15 - Maternagem

["Cabeça (Estudo para Les Demoiselles D´Avignon)", Pablo Picasso. Aquarela em papel. 22,4x17,5cm. Moma, Nova York]


Tenho muitas lembranças de quando era pequeno. Vivi por assim dizer bem, moleque que brincava nas ruas, empinava pipas coloridas, aprendendo sem saber segredos dos céus, das cores, da leveza das coisas. Fui ser engenheiro, criei aviões. Trabalhei antes que viessem os pelos do rosto e, quando breve conquistei uma boa posição, casei-me.

Era a mulher que escolhi e que me escolheu, aquela a quem fui destinado e com quem encontro as partes que faltam em mim. Não tive filhos, pois assim forças maiores quiseram que fosse. É uma marca ardida para mim e minha mulher, no entanto somos rodeados de seus alunos (ela é professora) e de nossos sobrinhos, o que nos aquece e mantém jovens, como se eu ainda visse as pipas no céu e os risos ao longe.

Mas a maior lembrança que tenho, aquela que ainda hoje se faz imponente aos finais dos dias, quando o crepúsculo e as primeiras estrelas se apresentam, é do rosto de minha mãe.

Minha mãe era muito moça quando se casou. Não amava o marido, porém nunca antes conhecera o amor para que pudesse comparar. A ilusão preencheu seus olhos, então, fazendo-a crer gostar daquele homem, cheio de mistérios e meias-respostas, cujos sonhos a ela jamais foi permitido tomar conhecimento - por diversas noites, sequer era a seu lado que ele os vivia. Por mais que se esforçasse, mantendo a casa em ordem e lhe dando filhos, no fundo passou a perceber que os fazia mais para sua própria salvação do que por qualquer outro motivo.

E nós, seus filhos, de algum modo vivíamos isso: fosse por meio das brigas entre nós ou com colegas da escola, fosse através de batidas fortes na mesa de jantar quando meu pai já se encontrava senil demais para nos disciplinar.

Eu, como primogênito, defendia minha mãe com minhas pequenas forças sempre que ela parecia necessitar minha ajuda. Lembro-me de a ver no quarto, curvada no canto da cama, chorando baixinho. Eu desejava ser um cavaleiro muito maior para protegê-la. Quando meu pai se foi, eu já estava em paz com sua imagem, mas o fato de poder cuidar dela era uma recompensa pra mim. Finalmente. Seu rosto parecia feliz, mais sereno, quando adentrou minha casa. No entanto, aquela sombra que perpassava seu rosto nos dias mais sombrios vez ou outra ressurgia, rapidamente, e eu flagrava esses momentos intrigado.

Lembro-me de que, no final - que se estendeu por longos meses e que só hoje vejo como me encheram de marcas -, ela dizia compreender melhor meu pai. Encontrava nele endereços do destino próximos aos seus: assim como ela, ele também não pôde exercer as próprias escolhas, fora tolhido de sua liberdade pela própria cidade e pelo pai, de modo que, como sujeito, ficara difícil demais persistir. Ela não o amava, é fato; mas ele tampouco nutria mais do que desprezo por aquela mulher, que todos os dias compartilhava seu miserável teto e representava tudo o que não pôde viver. Minha mãe percebeu, assim, que eles tiveram mais em comum do que podiam comunicar um ao outro: a diferença é que meu pai reagia a tais sentimentos com ira, e minha mãe, com resignação.

domingo, 13 de setembro de 2009

Conto um Quadro #14 - Cetim verde



[Edgar Degas, A aula de dança. Óleo sobre tela, 85 x 75 cm. Museu d´Orsay]


Madeleine estava cansada. Fisicamente exausta. Seus joelhos latejavam, os quadris contraídos, os pés em sangue. O suor pingava das pontas das mechas de cabelo, que teimavam em se soltar do coque. E, pra piorar, Sr. Chaussure não dava trégua: criticava cada músculo teimoso, cada ângulo inexato; não adiantavam os olhares das mocinhas, cheios de juventude e convencimento, a tentar dissuadi-lo de que era apenas um ensaio, e que, no momento necessário, tudo dava certo.
Porém, aos ouvidos de Madeleine, nada disso realmente fazia sentido. Via e ouvia a insatisfação do professor, os guinchinhos das amigas, o perambular do mascote, que rodeava as pernas finas, porém firmes, das exaustas. Também não se dava conta das respirações ofegantes devido à energia gasta, ainda que houvesse, naquela idade, muito mais vigor a ser rapidamente reabastecido (sobre isso, a menina sequer elaborava concepções: era nova demais para se saber nova). Em verdade, seus pensamentos se debruçavam na apresentação anterior, quando, ao final do segundo ato, ao voltar-se para as coxias, olhou antes para o camarote à esquerda e lá encontrou com os olhos verdes daquele rapaz que talvez sempre comparecesse ao teatro, mas que nunca antes adentrara o mundo de Madeleine -e era, portanto, como se passasse a existir somente ali, no final do segundo ato.
Engraçado como, em um dia, tornou-se ele o próprio centro, o eixo a partir do qual todos os atos, todos os gestos e todos os passos de dança eram executados por seu corpo de bailarina. Esse pensamento a fazia rir, assim como as expectativas de encontrá-lo novamente, por coincidência ou traquinagem do destino, a qualquer momento ou esquina. Se não o encontrava durante as tardes e idas ao colégio e às aulas de dança, o fazia em seus sonhos, quando ele tinha um rosto difusamente definido e os olhos verdes mais doces, porém misteriosos, que cruzaram os seus. As amigas já não se conformavam, tamanha a disposição de Madeleine a falar daquele rapaz incessantemente. Mas se divertiam e, de algum modo, passavam também a sentir pequenas alegrias do enamoramento, dando risinhos agudos e criando boatos, alguns ingênuos, outros maldosos, sobre quem ele seria. Apaixonavam-se em coletivo.
Madeleine não parecia sequer se conscientizar desses fenômenos, nem de que sua mãe estava preocupada com o sorriso bobo no rosto, sua ausência de fome e a necessidade de apertar um pouco mais a fita de cetim que circundava sua cintura. Estranhava mais ainda quando, ao perguntar qual fita a menina gostaria de colocar no ensaio do dia seguinte, esta lhe respondia num ímpeto: verde! Eu quero a fita verde.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Contando um Quadro # 13 - Frutos


["Copo de leite e maçãs", Paul Cézanne,1879-80. Óleo sobre tela, 50.2 x 61 cm. MOMA, Nova York]
"Amigo, que obra! Que beleza!"
Olhou para aquela perfeição assimétrica e fugaz, imortalizada por Paul. Pensou consigo mesmo que as relações que não são imortalizadas por algum tipo de arte jamais serão mais do que uma porção de frutas: belas, saborosas, porém com data para findarem o prazer. Quando passadas, ainda terão a chance de tornarem-se compotas ou alguma outra iguaria - um final ainda útil, mas não tão nobre quanto uma obra de arte. No mais, e é o que acontece com a maioria delas, vir-se-ão de repente adubo pra terra, nutrientes de novas mudas, novas árvores, novos frutos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Conto um Quadro #12 - Flashes sobrepostos

[Imagem: Hervé Ic, "Lamentação do amor. Óleo sobre tela, 170x210cm, 2008. Veja mais em www.herveic.com]


Ui, que dor de cabeça. Meio-dia, meu Deus, falei que nunca mais ia dormir até tão tarde... Ah é, saí ontem. Ai. Não lembro muito bem o que aconteceu.
Que preguiiça de levantar...! O que é isso no joelho, e no outro? Onde fiz esses hematomas? Ontem... Nooossa. Haha, é divertido lembrar de flashes! Hm, ok, nem tanto... Hahaha... Hm...
O que eu fiiz...?! Fiquei dando liberdade praquele cara, minhas amigas que começaram, chamando-os pra se sentarem com a gente. Eu só queria beber- eu mereço beber e fingir que estou feliz, era o que eu falava a noite toda. Nem percebi que ele se aproximava de mim (agora me lembro do seu sorriso, uma constante). Perguntei o que ele achava da vida e do amor. Falei-lhe de minhas dores, antes mesmo de perguntar seu nome. Ele foi tão atencioso, tão bom! Tão divertido! Sim, você merece beber, mas também precisa se cuidar - palavras dele. E o balanço do mar me dava um sono, cochilei encostada nele.
Que coisa. Só faço isso com quem me passa uma confiança, algo de especial. Mas acho que tenho dormido encostada em tantos desconhecidos e com tanta frequência que, vai ver, o algo que costumava ser especial esta virando banal, por culpa minha, ainda por cima... Que merda de pensamento.
Noossa... O que eu fiz. Na frente das minhas amigas, de amigos dele. E todo mundo fazendo algum juízo de mim: invejando, recriminando ou só se divertindo às minhas custas. Lembro de alguns rostos me olhando, perversos, silenciosos. Sim, eu quis tudo isso! Lembro que, deliberadamente, fiquei com as meias listradas. Só com elas. E ele estava adorando, o safado.
E eu também, adorando aquele momento em que, junto com as roupas, me despi das amarras de minhas feridas abertas, meus pensamentos ruminantes, a imagem de tudo o que perdi. A imagem dele, e dele, e dele outro também. Dos meus planos, tão meus unicamente, que nunca tiveram força suficiente pra sair do papel.
Dedico esta noite a minhas perdas! Hahaha! E uma homenagem especial à mais recente, que é a parcela de mim que se foi, junto com a maré. Só a ressaca ficou. A minha, a da maré, a minha... Hm... Preciso vomitar.

sábado, 4 de julho de 2009

Contando um Quadro # 11 - Tristeza


["Tristeza", Vincent Van Gogh. 1882. Litografia, 39.1 x 29.9. MOMA, Nova York]


"Tristeza é um dia cinza

onde todas as cores estão mas não se pode vê-las

Tristeza é um dia sem sol, um céu sem estrelas.

Tristeza é tudo e nada aproveitar,

É escuridão,

É solidão em pleno dia de Páscoa.

Tristeza é gelo que arde até queimar,

é ferida não cicatrizada

é alma traumatizada

é chorar sem nem saber por quê.

É ter alguém por quem sofrer

(mesmo que esse alguém seja você).

Tristeza é a indesejada, dura horas ou meses

é dor maior que a morte

(às vezes).

É um enorme corte, um arranhão de gato.

É necessidade de contato.

É fugir de tudo que no fundo é nada.

É chorar de madrugada,

é uma luz apagada num quarto de hotel.

Tristeza é fome, e excesso, é doença

é fraqueza na crença

é falta de fé.

Tudo isso a tristeza é."

(31/03/2004)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Conto um Quadro # 10 - Inusitado


[Imagem: "Abaporu", Tarsila do Amaral. Óleo sobre tela, 85x73cm. 1928]

Hoje senti falta de você.
Estranho que não foi pelas palavras doces que tanto me preenchiam. Nem por diários "eu te amo", que por vezes sofreram até a inevitável lei da banalização pelo excesso. Senti falta de você não foi pelas serenatas, nem sempre tão afinadas, mas sempre com notas de guaraná, begamota e jasmim, tão afrodisíacas. Minha falta sentida foi sequer pelas viagens sem rumo, cenários ensolarados, tão supreendentes quanto os próprios destinos de nossos atos. Tampouco foi pelos cafés da manhã, pelas massagens nas costas, pelos filmes antigos; nem pelas brigas, tão doídas, mas que nos faziam sentir uma vida pulsante, muitas vezes esquecida tamanha a paz de espírito que estabelecia nosso amor.

Não, senti falta de você hoje e não foi por nada disso: senti falta porque me lembrei de uma história sua, da qual eu não faço parte. Você estava com seu amigo, aquele de tanto tempo, em cima de uma moto. Velozes, quase bateram contra um caminhão, não fosse a força de suas pernas a desviá-los do choque.

E foi por isso: suas pernas. Hoje senti falta de você por causa da força de suas pernas.