["Cabeça (Estudo para Les Demoiselles D´Avignon)", Pablo Picasso. Aquarela em papel. 22,4x17,5cm. Moma, Nova York]
Tenho muitas lembranças de quando era pequeno. Vivi por assim dizer bem, moleque que brincava nas ruas, empinava pipas coloridas, aprendendo sem saber segredos dos céus, das cores, da leveza das coisas. Fui ser engenheiro, criei aviões. Trabalhei antes que viessem os pelos do rosto e, quando breve conquistei uma boa posição, casei-me.
Era a mulher que escolhi e que me escolheu, aquela a quem fui destinado e com quem encontro as partes que faltam em mim. Não tive filhos, pois assim forças maiores quiseram que fosse. É uma marca ardida para mim e minha mulher, no entanto somos rodeados de seus alunos (ela é professora) e de nossos sobrinhos, o que nos aquece e mantém jovens, como se eu ainda visse as pipas no céu e os risos ao longe.
Mas a maior lembrança que tenho, aquela que ainda hoje se faz imponente aos finais dos dias, quando o crepúsculo e as primeiras estrelas se apresentam, é do rosto de minha mãe.
Minha mãe era muito moça quando se casou. Não amava o marido, porém nunca antes conhecera o amor para que pudesse comparar. A ilusão preencheu seus olhos, então, fazendo-a crer gostar daquele homem, cheio de mistérios e meias-respostas, cujos sonhos a ela jamais foi permitido tomar conhecimento - por diversas noites, sequer era a seu lado que ele os vivia. Por mais que se esforçasse, mantendo a casa em ordem e lhe dando filhos, no fundo passou a perceber que os fazia mais para sua própria salvação do que por qualquer outro motivo.
E nós, seus filhos, de algum modo vivíamos isso: fosse por meio das brigas entre nós ou com colegas da escola, fosse através de batidas fortes na mesa de jantar quando meu pai já se encontrava senil demais para nos disciplinar.
Eu, como primogênito, defendia minha mãe com minhas pequenas forças sempre que ela parecia necessitar minha ajuda. Lembro-me de a ver no quarto, curvada no canto da cama, chorando baixinho. Eu desejava ser um cavaleiro muito maior para protegê-la. Quando meu pai se foi, eu já estava em paz com sua imagem, mas o fato de poder cuidar dela era uma recompensa pra mim. Finalmente. Seu rosto parecia feliz, mais sereno, quando adentrou minha casa. No entanto, aquela sombra que perpassava seu rosto nos dias mais sombrios vez ou outra ressurgia, rapidamente, e eu flagrava esses momentos intrigado.
Lembro-me de que, no final - que se estendeu por longos meses e que só hoje vejo como me encheram de marcas -, ela dizia compreender melhor meu pai. Encontrava nele endereços do destino próximos aos seus: assim como ela, ele também não pôde exercer as próprias escolhas, fora tolhido de sua liberdade pela própria cidade e pelo pai, de modo que, como sujeito, ficara difícil demais persistir. Ela não o amava, é fato; mas ele tampouco nutria mais do que desprezo por aquela mulher, que todos os dias compartilhava seu miserável teto e representava tudo o que não pôde viver. Minha mãe percebeu, assim, que eles tiveram mais em comum do que podiam comunicar um ao outro: a diferença é que meu pai reagia a tais sentimentos com ira, e minha mãe, com resignação.